
Julho de 1958.
Numa noite quente como esta, até mesmo as sombras precisam se refrescar.
Uma brisa leve bate.
Da cobertura do edifício St. Damien tem-se uma visão privilegiada do centro da cidade, seu lago, suas boates sempre ferventes. Os transeuntes que vem e vão feitos formigas sobre uma forma de bolo.
Ao longe, ouve-se o barulho de uma buzina, uma freada mais forte. Todas as luzes néon do centro, que iluminam a vida noturna daquela cidade. Os Outdoors com anúncios de pastas de dentes, refrigerantes e cigarros. Os de cigarros costumavam ser meus preferidos. Sempre com fotos de belas mulheres com longos cabelos negros, belos seios e roupas diminutas, as famosas Pin-Ups, com seus cigarros no canto da boca, sujando a ponta com seu imaginário batom vermelho – cereja. Eu costumava perder horas olhando-os brilhar ao longe, imaginando-me com uma daquelas mulheres.
A brisa aumentou um pouco, e eu começo a sentir um pouco de arrepio nos braços.
Em partes, pela camisa regata que uso. Em partes, pelo álcool que eu ingeri. Em partes, pela dor que sinto.
Faz 21 horas que minha mulher foi assassinada e tudo o que eu fiz foi beber e chorar.
E a dor que sinto é algo que não pode ser explicado. Ah, Christine, de todas as coisas que eu fiz na minha vida, você foi a única que me fez feliz.
Eu queria agora levantar da minha cama, empapado de suor frio, e tremendo. Passar a mão na testa e olhar para o lado, só pra ver seu belo corpo deitado, coberto por um fino lençol de seda. Queria sentir o cheiro de seus cabelos, e o calor de seu corpo.
Queria voltar a me sentir completo.
Ouço sua voz se misturar ao vento, e fugir de mim.
Sentado aqui, na beira da cobertura, eu me sinto mais perto de você.
25 andares até o chão. 75 metros.
Como será a dor? Será maior do que a que eu já sinto? Talvez eu morresse antes mesmo de acertar o chão. Talvez eu visse Deus frente – a – frente. Se isso acontecesse, eu poderia perguntar por que ele deixou que te tirassem de mim!
Hmm...Seria horrível deixar meu corpo cair 75 metros, chamar por Deus todo poderoso e sentir pela última e derradeira vez que ele não existe, e que a tal Providência Divina jamais me favoreceu.
Deus não existe. Nem nunca existiu! Desgraçado!
Em pé no para-peito eu consigo sentir tua mão tocar meu rosto Christine.
Eu já estou indo meu amor! Eu já vou me encontrar com você! Espere por mim querida!
APODREÇA NO INFERNO SANTO JOE!
Grito a plenos pulmões, minha garganta dói e os pombos que fizeram ninho na cobertura acordam e voam assustados.
Ouço um grito de volta. Cale a boca ou algo parecido.
Fecho os olhos, e o chão me parece mais perto. Aperto os olhos com força. Uma profunda e ultima inspiração. Uma lágrima escorre.
Caio de joelhos. Nem de ceifar a própria vida eu sou capaz! Inútil.
Desço do para-peito e entro em meu apartamento. Abro outra garrafa, sento no sofá e deixo o tempo passar.
Encontro uma calcinha sua. Vermelha como o batom daquela Pin-Up, porém real. Era a nossa preferida. Coloco-a toda dentro de minha mão direita, sento no sofá e com a mão esquerda eu pego a segunda garrafa da noite.
Um belo tapete branco felpudo recobre o chão daquela sala. Sofá de cinco lugares em forma de meia lua frente à televisão. Um bar feito de madeira em cor mogno com diversas garrafas e taças sobre ele.
Na parede, quadros por toda a parte.
E na poltrona de couro preto, muito macia, um homem, arrasado por suas escolhas, encontra uma última dose de conforto em uma profunda garrafa de Jack Daniel’s.
O tempo há de curar minhas feridas.
O tempo cura tudo.
É só deixa-lo passar.
E ele vai passar.
Julho de 2003...
